“Viver é um rasgar-se e remendar-se”. Guimarães Rosa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Maria Clara, mãe solteira...

  A dona jandira falou pra sua filha:

"Manera ai menina, é doce todo dia
Assim vc nunca vai se casar.
Acorda minha filha, vê se entra na linha
Arrumar um bom marido pra tua vida melhorar.
Sair desse beco, ter casa com reboco,
Ter uma boa vida sem precisar faxinar."
Maria Clara foi as lágrimas e mais uma vez
Ela foi dormir sem jantar.
Abnegava o que queria, se preparava todo dia
para um outro alguém vir lhe governar.
Se o pai não tivesse ido embora, talvez tivesse outro amparo
Ao invés de encarar a parede de tijolos não rebocados.
O tempo passou voando, carregando sua infância,
Sua primeira vez foi com Caio, filho da patroa da mãe,
Não pede licença quem nasceu se achando proprietário.
Ela não chorou, nem comeu doce escondido,
Juntou o pouco de dinheiro e partiu para o Rio com manequim 36.
A beleza rara, sobrancelhas como riscos de nanquim…
Por dentro um pequeno quarto frio com tijolos sem reboco.
Mas agora tudo era diferente, todos precisavam dizer o quanto
Ela aos 17 era tão especial, servia a grandes goles sua juventude,
Longe dos becos, no coração da capital;
Agora a garota de Ipanema recebia em dólar
Dançando na webcam pra gringo ver
Frequentava os melhores lugares,
Mas ainda vivia sem doces.
Não ficou nem sabendo como ou porque a mãe morreu
Tão pouco foi vendo as mudanças do tempo…
Simplesmente aconteceu.
A moeda virou nacional… o aluguel parecia se agigantar,
Ipanema elegeu novas musas e o tempo foi apagando
Tudo que parecia importar.
Controlava o bom senso dos homens, mas nunca teve
Nada realmente seu para controlar.
Mais uma década em uma pequena casa do beco solidão,
Maria Clara, mãe solteira,
Na sua casa sem reboco entrega um quindim
Para a pequena Antonieta…
“Toma… te alimenta pra guerra, minha guerreira”.
Tiago Silveira.

sábado, 20 de agosto de 2022

Renascer.


 

Voltei dos confins de mim

E respirar foi renascer de minhas mortes...


Morri a cada desencanto

Morri a cada falta,

A cada desilusão eu morri de novo

E tantas vezes morri

Que a cada renascer a reconstrução se fez mais dolorida.


Chorei tantas vezes,

Cansei nos dias lentos

De horas insolúveis de sentido...


Como foi difícil cada emersão das profundezas

Quando respirar a leveza da atmosfera que me acolhia

Era bálsamo para minha alma cansada

Que apesar de tudo ainda lutava.


Hoje, renascida, busco das lembranças e desatinos

Desatar os nós,

Emendar os encontros fortuitos

E ainda fecundos,

Que tive com todos os antigos eus

Jogados em terras férteis,

De amores consumados.


quarta-feira, 17 de agosto de 2022

A outra

Muitos homens conseguem separar amor e sexo. Para alguns, porém, não é tão fácil.

O dr. Eugênio Marcondes estava em casa, tomando o café da manhã, quando o celular tocou.
- Alô?
- Dr. Marcondes? É da sex shop. Liguei pra...
- Um momento! – berrou Eugênio, cortando a conversa. Virou-se para a esposa e falou:
- Sinto muito querida, é uma ligação de trabalho. Vou atender no escritório.
Minutos depois, retomou a ligação, furioso.
- Você quer ferrar meu casamento? Minha esposa podia ouvir. Nunca mais mencione sex shop, fale que é da importadora. – Um pouco mais calmo, perguntou:
- Por que vocês ligaram?
- Chegou a sex doll que o senhor encomendou. Quer retirar hoje?
- Claro que quero! – Incapaz de conter, perguntou suplicante:
- Ela é tudo aquilo que anunciaram?
- É sim, doutor. Linda, do tamanho de uma mulher de carne e osso, parece irmã gêmea da modelo humana. É feita de silicone, com cabelos reais e os orifícios aquecidos.
- Tá bom, passo aí hoje à tarde.
Às 16 horas, Eugênio não aguentou mais. Comunicou aos funcionários que tinha um assunto a resolver, saiu da empresa, passou na sex shop, pagou (uma nota preta), retirou a boneca, foi pra um hotel e teve uma das melhores sessões de sexo de sua vida. E não foi exatamente sexo solitário, pois Kim – abreviatura do nome da boneca, fabricada na China – podia cantar, dançar e falar com seu dono. Além de fazer barba, cabelo e bigode, claro. Sua boca, não permanentemente aberta como a das antigas bonecas infláveis, mas fechada e com uma leve sugestão de sorriso, abria-se para a penetração do cacete e o envolvia suavemente, como faria uma especialista em boquete; sua xaninha dispunha de grandes e pequenos lábios à imagem e semelhança dos da linda modelo chinesa, e o cuzinho, ah, somente um poeta poderia descrever aquela perfeição apertadinha mas elástica,sempre disposta a acolher um visitante. Eugênio passou horas trepando, como não fazia há muito tempo, explorando os três orifícios quentinhos graças a um sistema de aquecimento interno.
Ele chegou em casa às 11 da noite e guardou Kim no porão. Sua mulher não o viu chegar e não fez perguntas, então não teve de mentir. Nos dias seguintes, dividiu-se entre a esposa e a outra, entre a matriz e a filial. Primeiro, alternava entre a boquinha, a xoxota e o cuzinho de Kim; depois tomava um banho, para eliminar o cheiro de sexo, e finalmente ia dormir ao lado da matriz. Às vezes comparecia, para não dar bandeira – e, na verdade, ainda gostava de transar com ela. Mas gostava um pouquinho menos a cada dia.
Após um mês dessa vida de artista sexual – não muito recomendável para um homem de 66 anos –, Eugênio chegou a duas conclusões. A primeira: estava apaixonado por Kim, desejava tê-la a seu lado em todos os momentos, ouvi-la cantar e vê-la dançar, e não apenas trepar com ela no porão desconfortável. A segunda: sua esposa tinha de sumir.
“Passamos 5 bons anos juntos, mas acabou” – disse para si mesmo. – “E sei exatamente o que fazer”.
Na sexta, convidou a esposa para um passeio de lancha. Ela não respondeu, ele tomou o silêncio por aceitação. No sábado, conduziu-a de carro até a marina e embarcaram, afastando-se do litoral. A certa altura, quando não havia outro barco nas proximidades, desligou o motor, aproximou-se da esposa e jogou-a pela borda. Depois ficou observando, em silêncio, a boneca de silicone afundar. A água cobriu seu corpo gasto pelo uso e suas feições ainda belas, porém bem menos que as de Kim. Esta deixaria de ser a outra, escondida no porão, para se tornar a dona da casa, tomar café da manhã a seu lado e dormir com ele, no quarto de casal. Isso, admitiu para si mesmo, até o surgimento de um novo modelo de sex doll, ainda mais atraente que a chinesa. Ele se conhecia, iria comprar a nova versão de mulher perfeita, escondê-la no porão e trepar loucamente com ela até se declarar apaixonado. E então Kim seguiria o caminho de tantas outras bonecas que passaram por sua vida, rumo ao fundo do oceano.

Cadu Matos.


Carlos Eduardo Matos - Cadu Matos é escritor e acaba de lançar mais um livro:

Chegou Gata de foles e outras fábulas!

Meu terceiro livro impresso, dessa vez para o público infantojuvenil (e para as hordas de amantes de gatos) está em pré-lançamento no Clube de Autores.
São 14 contos de sacanagem zero (ou, no máximo, 0,5) mas todos bem escritos, modéstia à parte, e muito bem-humorados. São um ótimo presente para o Dia das Crianças
Peço a todos os frequentadores da página Caducontos, aos mais de 100 compradores de A outra e de Shoshana, e aos 145 leitores que e emocionaram com meus textos de despedida para Pimenta, que entrem no site do Clube de Autores e adquiram o livro.
Obrigado, um grande abraço.

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